Brasil: tecnologia e visão de futuro

Há um mês, durante um seminário sobre segurança cibernética, eu afirmei que a produção de…

Há um mês, durante um seminário sobre segurança cibernética, eu afirmei que a produção de chips não é apenas um tema técnico, mas uma questão de soberania nacional. Esta reportagem da Folha de São Paulo, publicada nesta semana, confirmou o alerta: o Brasil pode ter parte de sua indústria automobilística paralisada por falta de semicondutores — peças minúsculas, mas vitais para a economia moderna.

Cada carro produzido no mundo contém milhares de microprocessadores. Sem eles, não há veículo, trator, drone, celular, respirador ou rede de comunicação que funcione. A paralisação de fábricas por escassez de chips mostra o quanto a dependência tecnológica é o novo tipo de vulnerabilidade de um país. Quem controla a produção de chips, controla a economia.

Os chips são o que o petróleo foi no século passado: o motor invisível que move a economia. A disputa entre Estados Unidos, China e União Europeia pela autossuficiência em semicondutores é uma corrida pela sobrevivência econômica e militar. Enquanto as grandes potências subsidiam megafábricas e laboratórios, o Brasil segue dependente de importações e distante das cadeias globais de valor.

Temos, no entanto, um ativo estratégico: a estatal CEITEC S.A., criada em 2008 para desenvolver semicondutores no País. Por pouco não foi extinta, mas o governo reverteu a liquidação em 2023, reconhecendo sua importância. O problema é que, após anos de abandono, a CEITEC opera com tecnologia defasada e carece de escala industrial. Estima-se que um investimento de R$ 7,3 bilhões em cinco anos seria suficiente para colocá-la em outro patamar.

Enquanto isso, o Brasil mantém empresas estatais que já não atuam em áreas estratégicas. A Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, por exemplo, hoje opera essencialmente como empresa de logística e encomendas — um serviço amplamente atendido pela iniciativa privada. Mesmo assim, a estatal registrou prejuízo de R$ 4,3 bilhões apenas no primeiro semestre de 2025.

Não se trata de fechar os Correios, mas de transformá-lo em uma empresa competitiva e moderna, como o mundo exige. Manter estruturas do século XX custa caro em um mundo que já vive no século XXI. Cada Real gasto em modelos ineficientes é um Real a menos para desenvolver autonomia tecnológica. Com uma gestão profissional e metas de desempenho, os Correios poderiam ser parte da solução — e não do problema — liberando recursos e energia para investimentos em tecnologia e inovação.

Na discussão do Plano Plurianual 2024–2028 (PPA) e da Lei Orçamentária Anual de 2025 (LOA), defendi no Congresso uma emenda que tornava obrigatória a extinção ou reestruturação de empresas públicas com desempenho negativo e que não observassem padrões mínimos de boa governança e responsabilidade pública. Disse à época e reafirmo agora que não há justificativa para uma empresa estatal gerar prejuízo se outras do mesmo setor, operando em ambiente de concorrência, conseguem lucro e eficiência. Empresas públicas podem e devem existir, desde que tenham finalidade estratégica ou caráter essencial ao interesse nacional, como é o caso das áreas de defesa, energia, tecnologia, saúde e semicondutores.

A proposta buscava um critério técnico, não ideológico: avaliar cada estatal com base em sua função pública real e em seu resultado econômico e social. Quem atua em setores estratégicos precisa de apoio; quem concorre em áreas já maduras deve alcançar padrões de eficiência comparáveis aos do setor privado. A dependência externa de tecnologia é tão grave quanto a dependência de energia ou de alimentos. Nenhum país pode se considerar seguro se depende de outros para fazer funcionar suas máquinas, seu sistema de saúde, suas redes e seus sistemas de defesa. Soberania, hoje, se mede em nanômetros, na capacidade de projetar e produzir os chips que alimentam a economia digital.

Investir em semicondutores não é luxo; é defesa nacional, política industrial e visão de futuro. O Brasil tem universidades, engenheiros e mercado interno suficientes para participar dessa nova geopolítica da inovação. Falta, porém, decisão e a escolha de concentrar o esforço público onde ele realmente importa. Reformular prioridades não é extinguir o papel do Estado, mas reposicioná-lo. É natural que o setor privado lidere a logística de encomendas, mas neste momento só o Estado pode liderar a soberania tecnológica. O Brasil precisa decidir se continuará apenas entregando cartas ou se vai produzir os chips que mantêm o País funcionando quando o mundo parar.

 

Alberto Mourão

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