TRANSFORMAÇÃO SAUDÁVEL

*Alberto Mourão

 

Em apenas quatro anos (1997/2000), Praia Grande teve sua população acrescida de 40 mil habitantes, número superior à população da maioria das cidades brasileiras. Essa explosão populacional provocou um desajuste no sistema de saúde do Município. Vivemos numa corrida contra o tempo para tentar equacionar as demandas de serviços públicos. A área de saúde, por melhor que seja, sempre terá problemas, a maior parte relacionada aos recursos humanos. São questões de comportamento, da forma de interagir com os usuários, pois cada pessoa tem uma maneira de se portar e, por mais que se procure qualificar os profissionais de saúde, não há como controlar permanentemente o estado de humor do ser humano, que depende de diversos fatores externos, como a situação econômica, familiar, entre outros.

É comum o usuário criar uma imagem negativa do serviço público de saúde por conta da má receptividade que teve, porque em determinado momento o funcionário que o atendeu estava mal humorado ou estressado. Por isso é que, por mais que se faça, o sistema nunca será nota 10. Quando iniciamos o processo de reformulação do nosso sistema de saúde, encontramos resistência em segmentos diversos da sociedade, de pessoas com pensamentos contrários, que não compreenderam a necessidade das mudanças implantadas. Porém, persistimos porque tínhamos plena consciência de que para construirmos um país melhor no futuro, com uma sociedade mais sadia, é preciso investir maciçamente no atendimento básico, preventivo. Temos consciência também que durante gerações mantivemos no país uma política inadequada de saúde, e que hoje o grande movimento nas unidades de emergência é consequência disso; levará algum tempo para corrigirmos essas distorções, pois depende da reeducação dos profissionais e usuários do sistema. Mas era preciso começar essa transformação, buscar a melhoria da assistência médica desde o pré-natal, para que os resultados apareçam no decorrer das próximas gerações.

Quando “compramos” a ideia do Programa de Saúde da Família, nos colocaram mil obstáculos na frente. Diziam que não conseguiríamos montar as equipes, porque ninguém iria querer trabalhar nesse sistema, de período integral; que os recursos enviados pelo Ministério da Saúde não são suficientes (e não são mesmo, pois cada equipe custa R$ 250 mil/ano e o Município só recebe R$ 54 mil). Foi preciso coragem para pegar um orçamento de R$ 16 milhões e elevá-lo para R$ 51 milhões no terceiro ano para poder priorizar o atendimento básico, enfrentando fortes resistências, fazendo contínuas reuniões com os profissionais para explicar a importância das mudanças e buscar a adesão de todos ao projeto, apesar dos transtornos que qualquer mudança provoca, da necessidade de readaptação dos envolvidos. Confrontamos inclusive aqueles que, por interesses políticos ou pessoais, aproveitaram-se das dificuldades do período de implantação e do fato de que os frutos só serão colhidos a médio e longo prazo para minar o programa, insuflando os usuários a ter reações contrárias às modificações.

Sabemos que para o êxito do PSF é preciso haver uma retaguarda hospitalar, para que determinados casos de cirurgias eletivas sejam resolvidos, evitando assim que os mesmos se tornem emergências mais adiante. Se não lutarmos para mudar a mentalidade tanto dos usuários como dos prestadores de serviços, continuaremos sofrendo pressões no sentido de aumentar a rede emergencial, onde se faz de conta que se presta serviço, mas na verdade se engana o cidadão, dando um medicamento para resolver momentaneamente o problema, que surgirá de novo posteriormente, pois é na unidade básica de saúde que o paciente terá seu quadro clínico investigado. Já estamos colhendo os primeiros frutos desses esforços. Na Unidade de Saúde da Família (Usafa) da Vila São Jorge, onde o PSF foi implantado inicialmente, pudemos constatar a união e respeito entre os funcionários e pacientes, e o grau de satisfação destes pelo novo modelo. Hoje o Município já conta com 11 Usafas e 42 equipes de saúde da família. Nossa meta para os próximos anos, além de implantar as Usafas do Balneário Esmeralda, Jardim Real e Jardim Alice, é ampliar o número de equipes nas unidades para reduzir o tempo de espera das consultas e também proporcionar maior rapidez nos resultados dos exames médicos e laboratoriais.

O sucesso do PSF depende fundamentalmente dos integrantes das equipes que nele estão envolvidas, porque são eles os verdadeiros agentes dessa transformação. Somente eles poderão tornar inócuos os discursos equivocados, irresponsáveis e destrutivos, movidos por interesses pessoais, corporativos ou políticos. Temos certeza que esses profissionais irão consolidar o processo de transformação da saúde em nosso país e que as próximas gerações estarão bem melhor assistidas.

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